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Entrevista com a professora Núbia Dias dos Santos, da Universidade Federal de Sergipe – UFS, que fala sobre sua atuação nas Comunidades COEP rurais do semi-árido no Estado de Alagoas.


Professora, a senhora coordena a equipe que está implementando desenvolvimento comunitário em comunidades Coep do sertão alagoano. Quando a equipe iniciou as atividades e qual a proposta?

Nossa primeira atividade aconteceu em novembro de 2005, quando realizamos a visita de reconhecimento à Comunidade Quixabeira, em Água Branca. Conhecemos a comunidade, realizamos uma reunião e conversamos sobre a proposta do Projeto Universidade Cidadã. Em janeiro de 2006, realizamos as primeiras Oficinas envolvendo as três Comunidades: Quixabeira, em Água Branca, Campinho, em Pariconha, e Cacimba Cercada, em Mata Grande.  Nestas oficinas já trabalhamos questões relativas à identidade individual e coletiva, como a demanda de capacitação.

Qual a importância de um trabalho como este para a Universidade?
A Universidade só tem razão de existir quando está diretamente vinculada às demandas da sociedade. O trabalho que está sendo proposto para as Comunidades integrantes do COEP possibilita que as Universidades cumpram o seu papel social ao disponibilizar os conhecimentos produzidos no interior da academia para colocá-los a serviço do desenvolvimento de comunidades situadas no espaço agrário do sertão nordestino, ao mesmo tempo em que nos abrimos para absorver os conhecimentos produzidos e acumulados pelos membros das comunidades ao longo dos anos. Esta troca de experiência, de conhecimento e de cultura dá um novo sentido ao fazer acadêmico, aproxima a Universidade da Sociedade, ao mesmo tempo em que aproxima seres humanos com realidades distintas, mas com objetivos comuns: o de promover a prática da cidadania e, juntos, buscarmos o caminho do bem-estar e da qualidade de vida, direito inalienável de cada cidadão, independente do local da sua residência.

Quais as principais demandas da comunidade de Cacimba Cercada?
As demandas refletem o nível de desenvolvimento existente em cada comunidade; é uma radiografia nos aspectos político, econômico e social. A comunidade de Cacimba Cercada fica localizada em uma área de difícil acesso, não possui serviços de água encanada nem energia elétrica. Os moradores de lá apresentaram demandas elementares, uma vez que a comunidade está pouco estruturada no que se refere à presença/oferta de bens e serviços básicos. Tendo em vista o entendimento que os membros da comunidade possuem do acesso aos serviços públicos, visto como atrelamento político/partidário, a distância física também dificulta a instalação dos equipamentos, assim como o número de pessoas que reside na área não é atrativo para os caçadores de votos. As Demandas de Capacitação estão vinculadas a trabalhos manuais (artesanato, produção de doces, horticultura, corte e costura); à área artística (tocar violão, por exemplo) ou ainda ligadas à área de tecnologia (informática). Foi apresentada uma demanda generalizante, quando os presentes destacaram a necessidade de atividades direcionadas para os jovens da comunidade, mas não souberam identificá-la. Os presentes manifestaram tal preocupação pelo fato de entenderem que são muitos os sacrifícios vinculados à prática agrícola, e por saberem que esta atividade tem baixo retorno econômico, e também pelo anseio dos jovens em não exercerem esta profissão no futuro. As Demandas de Apoio à Inserção em Políticas Públicas foram relativas à instalação de um posto de saúde; à orientação para obtenção de empréstimos para investir na agricultura; assistência técnica para a agricultura (plantação de algodão) e para a criação de ovinos e instalação de um posto telefônico público. As Demandas Estruturantes foram: instalação de uma escola; implantação de serviço de água encanada; implantação de serviço de energia nas residências; instalação de uma fábrica de doces.

De que forma o COEP e a Universidade podem auxiliar a atender às demandas em Cacimba Cercada?
A atuação do COEP e da Universidade poderá subsidiar a comunidade a trilhar o caminho rumo às conquistas dos bens coletivos necessários à melhoria da qualidade de vida da população, quando a mesma passar a conhecer os procedimentos para tornar de conhecimento público as suas reivindicações e criar mecanismos de diálogo sem que haja vínculo político-partidário, mas resultado da mobilização da comunidade e da atuação dos órgãos oficiais responsáveis pela prestação dos serviços públicos por eles demandados.

Quais as demandas em Quixabeira?
A Comunidade Quixabeira já possui atuação do COEP e nela já foram instaladas uma mini-usina para beneficiamento do algodão, uma tele-sala, e o tear. Os produtores já receberam lotes de animais de pequeno porte. A comunidade dispõe de energia elétrica e água encanada. A Demanda de Capacitação foi apenas para o artesanato, uma vez que os membros da comunidade querem otimizar o tear, aliando a plantação do algodão ao beneficiamento do mesmo e à confecção de peças para comercialização. As Demandas de Apoio à Inserção em Políticas Públicas já envolvem serviços mais especializados como: Serviço de ambulância; Assistência de profissional de saúde na área de odontologia; implantação de sistema de saneamento básico; solicitação de ônibus para transporte até a zona urbana, aliada a uma necessidade básica que é a instalação de banheiros nas casas.

Em que área, então, foram concentradas as demandas de Quixabeira?
A Comunidade concentrou as demandas na área estruturante, uma vez que já há uma compreensão e visão do coletivo/comunidade; já existe o exercício da reivindicação/diálogo com representantes do setor público, e a própria comunidade já tem exercitado a experiência da construção coletiva como é o caso da sede da Associação e do aprisco dos animais. Assim, as Demandas Estruturantes apresentadas estão muito vinculadas à manutenção e fortalecimento das atividades agrícolas como: aquisição de um trator agrícola e de uma forrageira; construção de açudes, poços artesianos e implantação de sistema de irrigação; à ampliação do uso dos equipamentos, como a instalação de uma mini-fábrica de costura e a criação de uma cooperativa de artesanato (produzir tapete, rede, manta e produzir o fio de algodão). Há também demandas ligadas à indústria caseira como uma fábrica de polpas e uma casa de farinha. Na área da educação, foi levantada a possibilidade de instalação de uma escola de 2º Grau e de uma biblioteca. Na área do lazer, cogitou-se a construção de uma praça e de uma quadra de futebol, além da instalação de uma creche, de uma padaria, a construção de um matadouro e a instalação de uma farmácia.

Por que a comunidade de Campinhos apresenta um nível de demandas mais elaboradas?
Porque a comunidade já possui uma tradição e diálogo com o setor público, participando ativamente da política do município, elegendo inclusive vereadores da comunidade e já teve um dos seus representantes como vice-prefeito do município de Pariconha. Campinhos impressiona pela grande quantidade de moradores, pelas condições das residências e pela oferta de bens e serviços públicos e particulares. As Demandas de Capacitação foram na área de informática; em atividades manuais como: doces caseiros; artesanato (de material reciclado e couro); pintura em tecidos; culinária e polpas de frutas. Além da assistência técnica para lidar com o plantio e a criação. As demandas de apoio à inserção em políticas públicas, foram: construção de mais salas de aula; ampliação do posto de saúde; assistência de profissionais de saúde na área de fisioterapia e odontologia; assistência de vigilância sanitária e assistência técnica na agricultura. Já as Demandas Estruturantes estão voltadas à construção da sede da associação comunitária; instalação de uma escola de 1º Grau, de uma biblioteca e de uma delegacia; à aquisição de um trator e máquinas agrícolas, instalação de sistema de irrigação e construção de barragem;à instalação de uma mini-usina para o beneficiamento do algodão, uma fábrica de doces, uma fábrica de polpa de frutas e uma fábrica de roupas. Além disso, foi cogitada a construção de um centro de lazer; a instalação de uma tele-sala e a criação de cooperativa para manter o preço da safra.

O que foi feito depois que as comunidades apresentaram suas demandas?

Após a exposição das demandas, discutimos e analisamos em cada comunidade qual o papel do COEP, das Universidades e dos membros das comunidades para a concretização das demandas apresentadas, fazendo-os refletirem sobre o que significa desenvolvimento comunitário e a necessidade da mobilização da comunidade para conquistar suas próprias demandas sem ficarem na dependência de agentes externos.

De que forma a comunidade participa do processo e quais os resultados já alcançados?
A participação da comunidade ocorre nos momentos das oficinas, durante a realização das entrevistas e nas conversas informais. O nível de participação dos membros das comunidades tem contribuindo muito para o êxito das oficinas, e estas têm se transformado em momentos de auto-conhecimento e reflexão das práticas pessoais e coletivas, permitindo a elevação da auto-estima, a reflexão das relações inter-pessoais e os desafios impostos à vida em comunidade.

Na sua avaliação, o que mudou do início do processo até a fase atual nas comunidades envolvidas?
Nas comunidades o processo ainda é muito incipiente, mas em Campinho foi agilizada a construção da sede da associação como resultado da reflexão mantida durante a oficina de socialização, uma vez que as atividades da associação acontecem no espaço da Escola, havendo suspensão das atividades escolares quando da realização de reuniões ou atividades da Associação. Em Cacimba Cercada e Quixabeira o embate gira em torno do tratamento dado aos não-associados e quais os mecanismos que devem ser adotados para sensibilização dos demais membros da comunidade, mostrando a importância em fazer parte integrante da associação. No tocante ao grupo mobilizador, as atividades realizadas com os mesmos têm contribuído para despertar o sentido, o sentimento e a responsabilidade inerentes à tarefa de ser líder, ao mesmo tempo em que há uma quebra no sentimento de posse e de poder relativo a determinados equipamentos existentes em uma comunidade e ausente em outra, podendo permitir a somação de esforços para demais conquistas e o fortalecimento das comunidades enquanto conjunto.
Esperamos que a rica troca de experiências entre os membros do grupo mobilizador vivenciadas até o presente frutifiquem e permitam o fortalecimento contínuo destas comunidades e que as mesmas sirvam como referencial para as demais que não são contempladas com as ações do COEP. 

 

 

 

 
 
 
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